Todos os dias, ao voltar do passeio, perguntava se quais quer marítimos tinham passado na estrada. A princípio pensávamos que fazia essa pergunta por sentir a falta dos seus iguais; mas por fim começamos a ver que desejava evitá-los .Sempre que algum marinheiro ficava na Almirante Benbow espiava-o pela cortina antes de entrar na sala; e sempre que lá estivesse qualquer desses homens era certo e sabido que ele se conservava calado como um rato.
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Para mim, pelo menos, não havia naquilo nenhum segredo; porque, de certa maneira, partilhei dos sobressaltos dele .Uma vez, chamara-me de parte para me prometer quatro dinheiros de prata no primeiro dia de todos os meses se eu “estivesse sempre de vigia para avistar um marinheiro duma perna só”, e o avisasse logo que este aparecesse.
SILÊNCIOOOOO!
Nem preciso contar como tal personagem me assombrava em sonhos. Em noites de tormenta, quando o vento abalava os quatro cantos da casa e as vagas rugiam na enseada e contra as arribas, via-o com mil formas e mil expressões diabólicas. Umas vezes tinha a perna cortada pelo joelho, outras pelo quadril; depois era uma espécie de criatura monstruosa nascida só com aperna única, ao meio do corpo.
Mas, embora andasse tão aterrorizado pela ideia do marinheiro duma perna só, era eu quem do próprio capitão tinha menos medo do que qualquer outra pessoa que o conhecesse .Noites havia em que tomava um pedaço mais de rum com água do que a cabeça lhe podia suportar; então, ficava por vezes sentado a cantar aquelas velhas cantigas do mar maliciosas e depravadas, sem se importar com ninguém; mas por vezes encomendava rodadas de copos ,obrigando todos os presentes assustados a ouvir-lhe as histórias ou a acompanhá-lo em coro.
Os vizinhos todos a participar por amor à vida, subjugados pelo medo da morte, com cada um a cantar mais alto para evitar ser chamado à ordem. Pois quando lhe davam estes ataques, era o parceiro mais possessivo que já se viu; com palmadas na mesa ordenava o silêncio completo; lançava-se numa paixão de raiva se lhe faziam uma pergunta ou, outras vezes, se não lhe faziam nenhuma, concluindo que não estavam a dar ouvidos à sua história.
As narrativas eram o que mais assustava as pessoas. Eram histórias terríficas: de enforcamentos, do castigo da prancha no mar, tempestades, as Torturas Secas. Pelo que contava, devia ter vivido toda a vida entre os piores malfeitores que Deus jamais pusera sobre o mar; e a linguagem em que as contava chocava os nossos simples aldeões quase tanto como os crimes que descrevia.
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